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Fëanor, primogênito de [[Finwë]], Rei dos Noldor, e filho único de [[Míriel Serindë]], foi um príncipe noldorin | Fëanor, primogênito de [[Finwë]], Rei dos [[Noldor]], e filho único de [[Míriel Serindë]], foi um príncipe [[noldorin]], o maior de seu povo e líder de sua rebelião. | ||
== Aparência == | == Aparência == | ||
Fëanor era alto | Fëanor era alto, belo de rosto, com seus olhos de um brilho penetrante. Seu cabelo era longo e negro como o corvo.<ref name=":0">[[J.R.R. Tolkien]] (autor). [[Christopher Tolkien]] (editor). ''[[O Silmarillion|'''O Silmarillion''']]'' ([[Quenta Silmarillion]]; 6. De Fëanor e de Melkor Desacorrentado).</ref><ref>[[J.R.R. Tolkien]] (autor). [[Carl F. Hostetter]] (editor). '''''[[A Natureza da Terra-média]]''''' (Parte dois: corpo, mente e espírito; 4. Cabelos)</ref> | ||
Sua pele era, provavelmente, clara.<ref>[[J.R.R. Tolkien]]. '''''O Senhor dos Anéis''''' (Apêndices; F; II. Da tradução)</ref> | |||
== História == | == História == | ||
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Ainda na juventude, Fëanor se casou com uma [[Elfos|Elfa]] chamada [[Nerdanel]], que era filha de um grande ferreiro noldorin chamado [[Mahtan]], o elfo mais amado por Aulë. E foi com seu sogro Mahtan que Fëanor aprimorou ainda mais os seus conhecimentos sobre fabricação de metais e pedras. | Ainda na juventude, Fëanor se casou com uma [[Elfos|Elfa]] chamada [[Nerdanel]], que era filha de um grande ferreiro noldorin chamado [[Mahtan]], o elfo mais amado por Aulë. E foi com seu sogro Mahtan que Fëanor aprimorou ainda mais os seus conhecimentos sobre fabricação de metais e pedras. | ||
Nerdanel também era firme de vontade, mas mais paciente do que Fëanor, desejando entender mentes antes que comandá-las, e, no começo, ela o fez amainar quando o fogo de seu coração se tornava quente demais. Mas os feitos posteriores de Fëanor a entristeceram, e eles se afastaram. Sete filhos ela deu a Fëanor. Sua índole ela legou, em parte, a alguns deles, mas não a todos.<ref | Nerdanel também era firme de vontade, mas mais paciente do que Fëanor, desejando entender mentes antes que comandá-las, e, no começo, ela o fez amainar quando o fogo de seu coração se tornava quente demais. Mas os feitos posteriores de Fëanor a entristeceram, e eles se afastaram. Sete filhos ela deu a Fëanor. Sua índole ela legou, em parte, a alguns deles, mas não a todos.<ref name=":0" /> | ||
=== O segundo casamento de Finwë === | === O segundo casamento de Finwë === | ||
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Porém, embora o Rei Finwë tivesse reencontrado a felicidade, Fëanor nunca aprovou o segundo casamento de seu pai, motivo pelo qual, no futuro, Fëanor nunca se deu bem com seus dois meios-irmãos: [[Fingolfin]] e [[Finarfin]], filhos de seu pai com Indis. | Porém, embora o Rei Finwë tivesse reencontrado a felicidade, Fëanor nunca aprovou o segundo casamento de seu pai, motivo pelo qual, no futuro, Fëanor nunca se deu bem com seus dois meios-irmãos: [[Fingolfin]] e [[Finarfin]], filhos de seu pai com Indis. | ||
Fëanor era o mais poderoso na habilidade com palavras e com as mãos, com mais conhecimento que seus irmãos. Fingolfin era o mais forte, o mais resoluto e o mais valente. Finarfin era o mais belo e o mais sábio de coração.<ref>Quenta Silmarillion; 5. De Eldamar e dos Príncipes de Eldalië</ref> | Fëanor era o mais poderoso na habilidade com palavras e com as mãos, com mais conhecimento que seus irmãos. Fingolfin era o mais forte, o mais resoluto e o mais valente. Finarfin era o mais belo e o mais sábio de coração.<ref>[[J.R.R. Tolkien]] (autor). [[Christopher Tolkien]] (editor). ''[[O Silmarillion|'''O Silmarillion''']]'' ([[Quenta Silmarillion]]; 5. De Eldamar e dos Príncipes de Eldalië).</ref> | ||
=== A libertação de Melkor === | === A libertação de Melkor e a criação das Silmarils === | ||
Anos mais tarde, quando Fëanor e seus dois meios-irmãos já estavam todos adultos, casados, e com filhos, chegou o tempo em que [[Melkor]], o mais poderoso dentre todos os Valar, cujos tumultos e destruições já tinham causado duas grandes mudanças nas terras de [[Arda]], o Reino da Terra, foi enfim libertado. | Anos mais tarde, quando Fëanor e seus dois meios-irmãos já estavam todos adultos, casados, e com filhos, chegou o tempo em que [[Melkor]], o mais poderoso dentre todos os Valar, cujos tumultos e destruições já tinham causado duas grandes mudanças nas terras de [[Arda]], o Reino da Terra, foi enfim libertado. | ||
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{{Citação em Bloco|trecho=Fingolfin se curvou diante de Finwë [seu pai] e, sem palavra ou olhar para Fëanor, saiu da câmara. Mas Fëanor o seguiu e, à porta da casa do rei, deteve-o; e a ponta de sua espada reluzente ele pôs contra o peito de Fingolfin. “Vê, meio-irmão!”, exclamou. “Esta é mais afiada que tua língua. Tenta só mais uma vez usurpar o meu lugar e o amor de meu pai, e pode ser que ela livre os Noldor de alguém que busca ser o mestre de servos.”|fonte=[[O Silmarillion]] ([[Quenta Silmarillion]]; 7. Das Silmarils e da Inquietação dos Noldor)}} | {{Citação em Bloco|trecho=Fingolfin se curvou diante de Finwë [seu pai] e, sem palavra ou olhar para Fëanor, saiu da câmara. Mas Fëanor o seguiu e, à porta da casa do rei, deteve-o; e a ponta de sua espada reluzente ele pôs contra o peito de Fingolfin. “Vê, meio-irmão!”, exclamou. “Esta é mais afiada que tua língua. Tenta só mais uma vez usurpar o meu lugar e o amor de meu pai, e pode ser que ela livre os Noldor de alguém que busca ser o mestre de servos.”|fonte=[[O Silmarillion]] ([[Quenta Silmarillion]]; 7. Das Silmarils e da Inquietação dos Noldor)}} | ||
E os Valar, quando ficaram sabendo do ocorrido, sem conhecimento das mentiras que Melkor havia plantado entre os Elfos noldorin, acreditaram que todo esse descontentamento noldorin advinha especificamente de Fëanor, convocando-o para ser julgado no [[Máhanaxar]], o Círculo do Julgamento. Porém, após Fëanor e muitos outros Elfos serem ouvidos, a malícia de Melkor enfim foi revelada aos Elfos e aos Valar. | E os Valar, quando ficaram sabendo do ocorrido, sem conhecimento das mentiras que Melkor havia plantado entre os Elfos noldorin, acreditaram que todo esse descontentamento noldorin advinha especificamente de Fëanor, convocando-o para ser julgado no [[Máhanaxar]], o Círculo do Julgamento. Porém, após Fëanor e muitos outros Elfos serem ouvidos, a malícia de Melkor enfim foi revelada aos Elfos e aos Valar. | ||
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Ainda assim, Fëanor não foi considerado completamente inocente, posto que de fato havia apontado uma espada para seu meio-irmão Fingolfin e o ameaçado, com Fëanor sendo condenado a viver em exílio por 12 anos. | Ainda assim, Fëanor não foi considerado completamente inocente, posto que de fato havia apontado uma espada para seu meio-irmão Fingolfin e o ameaçado, com Fëanor sendo condenado a viver em exílio por 12 anos. | ||
Quanto a Melkor, embora sua malícia tivesse sido enfim revelada, já era tarde demais, pois ele fugiu durante o julgamento e não pôde mais ser encontrado por qualquer um dos Valar ou dos Elfos. | |||
Foi então que Fëanor, junto de seus sete filhos, construiu um local fortificado no norte de Valinor, que ficou conhecido como [[Formenos]], a Fortaleza do Norte, onde ele guardou uma vasta quantidade de gemas e armas, e onde ele trancou as três Silmarilli em uma câmara de ferro. E para lá também foi Finwë, Rei dos Noldor, devido ao grande amor que tinha por seu primogênito, de modo que, Fingolfin, meio-irmão de Fëanor, acabou passando a governar os Noldor na cidade de [[Tirion sobre Túna]]. | |||
Foi então que Fëanor, junto de seus sete filhos, construiu um local fortificado no norte de Valinor, que ficou conhecido como Formenos, a Fortaleza do Norte, onde ele guardou uma vasta quantidade de gemas e armas, e onde ele trancou as três Silmarilli em uma câmara de ferro. | |||
Assim, embora as intenções de Melkor tivessem sido descobertas, suas mentiras de certa forma se tornaram realidade, e a amargura que Melkor tinha semeado entre os Elfos noldorin subsistiu, vivendo por um longo tempo especialmente entre os filhos de Fingolfin e de Fëanor. | Assim, embora as intenções de Melkor tivessem sido descobertas, suas mentiras de certa forma se tornaram realidade, e a amargura que Melkor tinha semeado entre os Elfos noldorin subsistiu, vivendo por um longo tempo especialmente entre os filhos de Fingolfin e de Fëanor. | ||
E conta-se que, por um longo tempo, Melkor não foi mais visto em Valinor, até que, subitamente, ele foi até Formenos, onde conversou pessoalmente com Fëanor diante de suas portas. Porém, as palavras de Melkor calaram fundo demais e despertaram em Fëanor um fogo mais feroz do que pretendia. Então o ódio sobrepujou o medo de Fëanor, e ele amaldiçoou Melkor e ordenou que partisse, trancando as portas de sua casa no rosto do mais poderoso de todos os habitantes de [[Eä]], o universo.<ref>[[J.R.R. Tolkien]] (autor). [[Christopher Tolkien]] (editor). ''[[O Silmarillion|'''O Silmarillion''']]'' ([[Quenta Silmarillion]]; 7. Das Silmarils e da Inquietação dos Noldor).</ref> | |||
Depois disso, Melkor mais uma vez sumiu, e por um tempo os povos de Valinor viveram em paz. | |||
=== A morte de Finwë e o saque das Silmarils === | |||
Depois de alguns anos, ainda durante exílio do Fëanor, chegou uma época de festival, quando os Valar deram uma grande festa em louvor a [[Eru Ilúvatar]], o Uno, na tentativa de remendar pelo menos um pouco as feridas e as desavenças que Melkor havia semeado entre os Elfos, especialmente aqueles do clã noldorin, com [[Manwë]], Rei dos Valar, decretando que essa deveria ser a maior festa já feita até então, convidando todos os Elfos, e também o próprio Fëanor, o qual aceitou o convite, embora seu pai Finwë, Rei dos Noldor, tivesse optado por continuar em Formenos. | |||
Durante esse festival, Fëanor se reencontrou com seu meio-irmão Fingolfin e, de certa forma, se reconciliou com ele, com Fingolfin dizendo que o perdoava e que o seguiria até o fim. | |||
[ | Acontece que Melkor não tinha apenas fugido quando teve suas intenções reveladas, mas buscou também o auxílio de [[Ungoliant]], um grande espírito em forma de aranha, que ele próprio havia corrompido no princípio do tempo. E, bem no momento em que Fingolfin proferiu as palavras de que seguiria Fëanor aonde quer que ele fosse, Melkor e Ungoliant chegaram até os campos de Valinor e, lá no [[Ezellohar]], o Teso Verdejante, Melkor golpeou com sua lança negra cada uma das Duas Árvores, até a medula, e a seiva delas vazou como sangue, que foi sugada por Ungoliant. E o veneno de Ungoliant entrou nos tecidos das Duas Árvores de Valinor, por fim matando elas duas, com Ungoliant inchando até chegar a uma forma tão vasta e tão horrenda que até Melkor teve medo dela. | ||
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[TEXTO AINDA NÃO REVISADO] | |||
E, como o Sol e a Lua ainda não existiam nessa época do Mundo, e como as Duas Árvores de Valinor eram a única fonte de luz da terra dos deuses e dos Altos Elfos, uma grande escuridão caiu sobre Valinor, igualando os Elfos da Luz de Valinor aos Elfos Escuros da Terra-média. | |||
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'''Quenta Silmarillion; 13. Do Retorno dos Noldor''' | '''Quenta Silmarillion; 13. Do Retorno dos Noldor''' | ||
== Etimologia == | == Etimologia e outros nomes == | ||
Fëanor é a combinação do [[quenya]] ''fëa'' ("espírito") com o quenya ''nár'' ("fogo"), significando "espírito de fogo". | Em uma das versões da história é dito que Fëanor recebeu primeiro o nome de '''Minyon''', Primeiro-gerado, mas depois o de Curufinwë ou Fëanor.<ref>[[J.R.R. Tolkien]] (autor). [[Christopher Tolkien]] (editor). '''''[[O Anel de Morgoth]]''''' (Parte Dois: Os Anais de Aman; Terceira Seção dos Anais de Aman; O Acorrentamento de Melkor; 1115)</ref> | ||
Seu nome paterno era '''Curufinwë''', sendo a junção de ''curu'' ("engenho") com o nome de seu pai, ''finwë'', e ele deu o mesmo nome a seu quinto filho, Curufin; mas ele próprio era conhecido pelo nome que sua mãe lhe deu, '''Fëanáro''', “Espírito de Fogo”, que recebeu a forma sindarin Fëanor.<ref>[[J.R.R. Tolkien]] (autor). [[Christopher Tolkien]] (editor). ''[[O Silmarillion|'''O Silmarillion''']]'' (Índice de Nomes).</ref> | |||
'''Fëanor''' é a combinação do [[quenya]] ''fëa'' ("espírito") com o quenya ''nár'' ("fogo"), significando "espírito de fogo". | |||
A forma [[sindarin]] de ''nár'' era ''naur'', como em ''Sammath Naur'', as Câmaras de Fogo. Ambas versões derivam da mesma raiz antiga: ''(a)nar'', o nome do Sol (em quenya ''Anar'', sindarin ''Anor''). | A forma [[sindarin]] de ''nár'' era ''naur'', como em ''Sammath Naur'', as Câmaras de Fogo. Ambas versões derivam da mesma raiz antiga: ''(a)nar'', o nome do Sol (em quenya ''Anar'', sindarin ''Anor''). | ||
== Referências == | |||
Edição atual tal como às 20h23min de 3 de outubro de 2026
- Página em construção. Atualizada por último em: 03/10/2026.
Fëanor, primogênito de Finwë, Rei dos Noldor, e filho único de Míriel Serindë, foi um príncipe noldorin, o maior de seu povo e líder de sua rebelião.
Aparência
Fëanor era alto, belo de rosto, com seus olhos de um brilho penetrante. Seu cabelo era longo e negro como o corvo.[1][2]
Sua pele era, provavelmente, clara.[3]
História
A morte de Míriel
O nascimento de Fëanor foi um peso tão grande em corpo e espírito que sua mãe Míriel, logo após o parto, passou a ansiar por "se libertar" da vida, sendo que ela, ainda no primeiro ano de vida de seu filho, foi entregue aos cuidados de Irmo, o Vala das visões e sonhos, lá nos jardins de Lórien.
Lá nos jardins de Lórien, Míriel se deitou para dormir, mas, embora parecesse dormir, seu espírito partiu de seu corpo e passou em silêncio para os salões de Námo, o Vala mestre das casas dos mortos, que ficava lá em Mandos, sendo esse o primeiro registro histórico de uma morte élfica, que veio não pela destruição do corpo físico, mas pela simples tristeza e vontade de deixar a vida.
O corpo de Míriel foi cuidado por Irmo e seus serviçais lá em Lórien, com ele permanecendo imaculado; porém, embora os Elfos fossem imortais e tivessem seus corpos e espíritos presos a este Mundo, o espírito de Míriel, que tinha ido para os salões de Mandos, jamais retornou para seu corpo físico.
A juventude de Fëanor
Finwë, pai de Fëanor e rei dos Noldor, passou a viver em grande tristeza, sempre entregando todo o seu amor ao seu único filho, que cresceu um Elfo altivo, dominador, ávido, resoluto, e de grande habilidade com as palavras e as mãos. Poucos alguma vez mudaram seu curso por conselho, ninguém pela força.
Ainda em sua juventude, Fëanor aprimorou a antiga obra de Rúmil, criando um novo alfabeto que, no decorrer do tempo, passaria a ser usado por todas as línguas élficas, o qual vamos chamar simplesmente de Tengwar de Fëanor ("Letras de Fëanor"). Alfabeto esse que, inclusive, é o alfabeto que seria usado, milênios mais tarde, lá na inscrição do Grande Anel de Sauron, embora a língua em si não fosse élfica;
Assim como muitos dos Noldor, Fëanor foi um pupilo de Aulë, o Vala ferreiro, e com frequência era um hóspede em seus salões, tornando-se um grande ferreiro e, quando mais velho, insuperável por qualquer outro.
E foi Fëanor, o maior dentre todos os ferreiros, quem primeiro descobriu que, através da Arte, era possível criar gemas maiores e mais brilhantes que aquelas que provinham naturalmente da terra.
Nos primeiros anos de seu trabalho como ferreiro, maleando e criando essas gemas novas artificiais, Fëanor criou cristais nos quais coisas distantes podiam ser vistas, os quais, mais tarde, foram usados em Númenor e na Terra-média, sendo chamados de Palantíri, as Pedras Videntes.
Ainda na juventude, Fëanor se casou com uma Elfa chamada Nerdanel, que era filha de um grande ferreiro noldorin chamado Mahtan, o elfo mais amado por Aulë. E foi com seu sogro Mahtan que Fëanor aprimorou ainda mais os seus conhecimentos sobre fabricação de metais e pedras.
Nerdanel também era firme de vontade, mas mais paciente do que Fëanor, desejando entender mentes antes que comandá-las, e, no começo, ela o fez amainar quando o fogo de seu coração se tornava quente demais. Mas os feitos posteriores de Fëanor a entristeceram, e eles se afastaram. Sete filhos ela deu a Fëanor. Sua índole ela legou, em parte, a alguns deles, mas não a todos.[1]
O segundo casamento de Finwë
Finwë, Rei dos Noldor e pai de Fëanor, por fim se casou novamente. E o nome de sua esposa era Indis, a Bela, que tinha cabelos dourados como a maioria dos Vanyar, o clã élfico do qual ela fazia parte.
Porém, embora o Rei Finwë tivesse reencontrado a felicidade, Fëanor nunca aprovou o segundo casamento de seu pai, motivo pelo qual, no futuro, Fëanor nunca se deu bem com seus dois meios-irmãos: Fingolfin e Finarfin, filhos de seu pai com Indis.
Fëanor era o mais poderoso na habilidade com palavras e com as mãos, com mais conhecimento que seus irmãos. Fingolfin era o mais forte, o mais resoluto e o mais valente. Finarfin era o mais belo e o mais sábio de coração.[4]
A libertação de Melkor e a criação das Silmarils
Anos mais tarde, quando Fëanor e seus dois meios-irmãos já estavam todos adultos, casados, e com filhos, chegou o tempo em que Melkor, o mais poderoso dentre todos os Valar, cujos tumultos e destruições já tinham causado duas grandes mudanças nas terras de Arda, o Reino da Terra, foi enfim libertado.
Acontece que Melkor, embora tivesse demonstrado aos outros Valar e aos Altos Elfos de Valinor seu arrependimento e seu desejo de curar as feridas que ele mesmo tinha causado, não estava arrependido de verdade e, por um tempo, ocultou seus verdadeiros pensamentos, postergando sua vingança.
E foi naquele tempo que foram feitas aquelas joias que mais tarde se tornariam as mais renomadas de todas as obras dos Elfos. Pois Fëanor, tendo chegado ao seu poder pleno, fez as Silmarils.
As Silmarils – também chamadas de Silmarilli – eram três joias nas quais Fëanor conseguiu aprisionar parte da própria luz de Valinor, que adivinha das Duas Árvores – Telperion e Laurelin – de modo que, mesmo na escuridão, essas joias brilhavam como as estrelas de Varda, a rainha dos Valar. E o coração de Fëanor para sempre se prendeu às Silmarils.
Melkor, porém, agora andando livre por Valinor, ajudando os Elfos e os Valar, cobiçou as Silmarils de Fëanor e, buscando uma forma de sobrepujá-lo, começou a plantar mentiras nas mentes dos Elfos noldorin, fazendo-os desconfiarem tanto dos Valar quanto de si mesmos.
E foi assim que, antes que os Valar percebessem, a paz de Valinor foi envenenada, com uma nova chama de desejo por liberdade começando a queimar nos corações dos Noldor e, em especial, de Fëanor.
Foi então que Melkor, vendo que suas mentiras estavam sendo cultivadas e espalhadas pelos próprios Elfos - especialmente os Elfos noldorin - começou a espalhar ainda mais mentiras em Eldamar, a Casadelfos, e sussurros chegaram a Fëanor dizendo que seu meio-irmão Fingolfin estava tramando usurpar o trono do Rei Finwë – o pai deles dois – e com a suposta permissão dos Valar. E sussurros semelhantes também chegaram aos ouvidos de Fingolfin, dizendo que Fëanor queria usurpar o trono noldorin.
E foi assim que, num fatídico dia, quando Fingolfin conversava com seu pai, Fëanor entrou na câmara real completamente armado: seu elmo alto sobre sua cabeça e, ao seu lado, uma espada poderosa.
Fingolfin se curvou diante de Finwë [seu pai] e, sem palavra ou olhar para Fëanor, saiu da câmara. Mas Fëanor o seguiu e, à porta da casa do rei, deteve-o; e a ponta de sua espada reluzente ele pôs contra o peito de Fingolfin. “Vê, meio-irmão!”, exclamou. “Esta é mais afiada que tua língua. Tenta só mais uma vez usurpar o meu lugar e o amor de meu pai, e pode ser que ela livre os Noldor de alguém que busca ser o mestre de servos.”
— O Silmarillion (Quenta Silmarillion; 7. Das Silmarils e da Inquietação dos Noldor)
E os Valar, quando ficaram sabendo do ocorrido, sem conhecimento das mentiras que Melkor havia plantado entre os Elfos noldorin, acreditaram que todo esse descontentamento noldorin advinha especificamente de Fëanor, convocando-o para ser julgado no Máhanaxar, o Círculo do Julgamento. Porém, após Fëanor e muitos outros Elfos serem ouvidos, a malícia de Melkor enfim foi revelada aos Elfos e aos Valar.
Ainda assim, Fëanor não foi considerado completamente inocente, posto que de fato havia apontado uma espada para seu meio-irmão Fingolfin e o ameaçado, com Fëanor sendo condenado a viver em exílio por 12 anos.
Quanto a Melkor, embora sua malícia tivesse sido enfim revelada, já era tarde demais, pois ele fugiu durante o julgamento e não pôde mais ser encontrado por qualquer um dos Valar ou dos Elfos.
Foi então que Fëanor, junto de seus sete filhos, construiu um local fortificado no norte de Valinor, que ficou conhecido como Formenos, a Fortaleza do Norte, onde ele guardou uma vasta quantidade de gemas e armas, e onde ele trancou as três Silmarilli em uma câmara de ferro. E para lá também foi Finwë, Rei dos Noldor, devido ao grande amor que tinha por seu primogênito, de modo que, Fingolfin, meio-irmão de Fëanor, acabou passando a governar os Noldor na cidade de Tirion sobre Túna.
Assim, embora as intenções de Melkor tivessem sido descobertas, suas mentiras de certa forma se tornaram realidade, e a amargura que Melkor tinha semeado entre os Elfos noldorin subsistiu, vivendo por um longo tempo especialmente entre os filhos de Fingolfin e de Fëanor.
E conta-se que, por um longo tempo, Melkor não foi mais visto em Valinor, até que, subitamente, ele foi até Formenos, onde conversou pessoalmente com Fëanor diante de suas portas. Porém, as palavras de Melkor calaram fundo demais e despertaram em Fëanor um fogo mais feroz do que pretendia. Então o ódio sobrepujou o medo de Fëanor, e ele amaldiçoou Melkor e ordenou que partisse, trancando as portas de sua casa no rosto do mais poderoso de todos os habitantes de Eä, o universo.[5]
Depois disso, Melkor mais uma vez sumiu, e por um tempo os povos de Valinor viveram em paz.
A morte de Finwë e o saque das Silmarils
Depois de alguns anos, ainda durante exílio do Fëanor, chegou uma época de festival, quando os Valar deram uma grande festa em louvor a Eru Ilúvatar, o Uno, na tentativa de remendar pelo menos um pouco as feridas e as desavenças que Melkor havia semeado entre os Elfos, especialmente aqueles do clã noldorin, com Manwë, Rei dos Valar, decretando que essa deveria ser a maior festa já feita até então, convidando todos os Elfos, e também o próprio Fëanor, o qual aceitou o convite, embora seu pai Finwë, Rei dos Noldor, tivesse optado por continuar em Formenos.
Durante esse festival, Fëanor se reencontrou com seu meio-irmão Fingolfin e, de certa forma, se reconciliou com ele, com Fingolfin dizendo que o perdoava e que o seguiria até o fim.
Acontece que Melkor não tinha apenas fugido quando teve suas intenções reveladas, mas buscou também o auxílio de Ungoliant, um grande espírito em forma de aranha, que ele próprio havia corrompido no princípio do tempo. E, bem no momento em que Fingolfin proferiu as palavras de que seguiria Fëanor aonde quer que ele fosse, Melkor e Ungoliant chegaram até os campos de Valinor e, lá no Ezellohar, o Teso Verdejante, Melkor golpeou com sua lança negra cada uma das Duas Árvores, até a medula, e a seiva delas vazou como sangue, que foi sugada por Ungoliant. E o veneno de Ungoliant entrou nos tecidos das Duas Árvores de Valinor, por fim matando elas duas, com Ungoliant inchando até chegar a uma forma tão vasta e tão horrenda que até Melkor teve medo dela.
[TEXTO AINDA NÃO REVISADO]
E, como o Sol e a Lua ainda não existiam nessa época do Mundo, e como as Duas Árvores de Valinor eram a única fonte de luz da terra dos deuses e dos Altos Elfos, uma grande escuridão caiu sobre Valinor, igualando os Elfos da Luz de Valinor aos Elfos Escuros da Terra-média.
E os deuses, vendo o que Melkor tinha feito, imediatamente mandaram o deus Oromë e outros cavaleiros atrás deles, mas a Escuridão que envolvia Ungoliant e Melkor não era a simples falta de luz, e eles dois conseguiram enfim escapar, tendo Melkor voltado pra sua antiga fortaleza de Angband, no extremo noroeste da Terra-média.
Foi então que Yavanna, a deusa Provedora dos Frutos, que centenas de anos antes tinha criado as Duas Árvores, ao ver que elas ‘tavam ambas mortas, disse que a Luz delas vivia agora somente nas Silmarils de Fëanor, já que, como eu comentei mais atrás, Fëanor tinha prendido parte da luz das Duas Árvores nessas joias quando ele criou elas três.
E a Valië Yavanna sabia que algumas obras só podem ser realizadas uma única vez e, assim como Fëanor não conseguiria forjar as Silmarils novamente caso as perdesse, ela também não conseguiria criar as Duas Árvores novamente, agora que elas ‘tavam ambas mortas.
Porém, a deusa Yavanna sabia que, se pudesse usar um pouco da antiga Luz das Duas Árvores, que Fëanor tinha aprisionado nas Silmarils, ela não precisaria criar NOVAS Árvores, mas poderia dar vida de volta às Duas Árvores que Melkor e Ungoliant tinham matado.
E, assim, ouvindo as palavras da Valië Yavanna, todos os outros deuses clamaram que Fëanor entregasse as Silmarils a ela, não só porque as Duas Árvores eram a única fonte de luz de toda Arda, o Reino da Terra, de modo que seria valiosíssimo não só pros deuses como também pros próprios Elfos que elas fossem revividas, como também
como também porque as Silmarils não poderiam ter sido forjadas por ele se não fossem as Árvores de Yavanna, no sentido de que, como Fëanor só conseguiu criar as Silmarils por causa das Duas Árvores, nada mais justo do que ele abrir mão dessas joias justamente pra dar vida novamente a elas.
[CITAÇÃO]
Parecia-lhe que estava sob o assédio de um círculo de inimigos, e as palavras de Melkor voltaram-lhe à mente, dizendo que as Silmarils não estavam seguras se os Valar [os deuses] desejassem possuí-las. “E não é ele Vala, como são eles,” disse em seu pensamento, “e não entende seus corações? Sim, um ladrão há de revelar ladrões!” Então gritou em alta voz: “Essa coisa não farei de livre vontade. Mas, se os Valar me forçarem, então hei de saber de fato que Melkor é de sua família.”
O Silmarillion
Quenta Silmarillion; 9. Da Fuga dos Noldor
Mas, no momento em que a deusa Nienna chorava pela morte das Duas Árvores, sabendo que Fëanor não permitiria que as Silmarils fossem destruídas para revivê-las, chegaram mensageiros élficos de Formenos, a Fortaleza do Norte, trazendo
trazendo notícias de que Melkor, envolto em uma Escuridão, [ENU] chegou até a casa de Fëanor, matou seu pai Finwë, o Rei dos Noldor (derramando o primeiro sangue do Reino Abençoado), e levou consigo as três Silmarils, que ‘tavam guardadas por lá.
E foi aqui que Melkor foi amaldiçoado por Fëanor, que o chamou de Morgoth, o Inimigo Sombrio, pela primeira vez – nome esse que passou a ser o único usado a partir daí. Ou seja, Melkor ou Morgoth, a gente ‘tá falando do mesmo ser.
Mas Fëanor amaldiçoou também os Valar, os próprios deuses, por terem convocado ele pr’aquele festival, já que, se ele ‘tivesse ficado lá na Fortaleza do Norte, ele talvez pudesse ter protegido o seu pai.
6. O JURAMENTO DE FËANOR E O EXÍLIO DOS NOLDOR
E foi então que Fëanor, desrespeitando sua sentença de banimento, que ainda ‘tava vigente, voltou então até sua antiga cidade de Tirion sobre Túna, já que agora ele era por direito o Rei dos Noldor, tendo em vista que ele era o primogênito do recém-falecido Rei Finwë.
E lá, em meio à escuridão que tinha passado a cobrir Valinor desde a destruição de Telperion e Laurelin, as Duas Árvores, Fëanor convocou seu povo ao pátio do rei, onde, iluminados por tochas, muitos Elfos noldorin se reuniram, com Fëanor, um mestre das palavras, e amargurado com os deuses e ainda mais com Morgoth, dando um grande discurso.
Fëanor, ainda influenciado pelas mentiras de Morgoth, clamou que o destino dos Noldor não ‘tava lá em Valinor, sob a governança dos Valar, mas sim na Terra-média, de onde muito tempo antes os seus antepassados tinham vindo, e onde eles poderiam ser livres de verdade pra governarem seus próprios reinos como bem entendessem.
[CITAÇÃO]
Ferozes e tremendas foram suas palavras, e, cheias de raiva e soberba; e, ao ouvi-las, os Noldor foram levados à loucura. Sua ira e seu ódio estavam voltados sobretudo contra Morgoth e, contudo, quase tudo o que disse veio das mesmas mentiras do próprio Morgoth; mas ele estava assoberbado de pesar pelo assassinato de seu pai e angustiado com o roubo das Silmarils.
O Silmarillion
Quenta Silmarillion; 9. Da Fuga dos Noldor
Foi então que Fëanor fez um juramento terrível, e seus sete filhos saltaram de imediato ao seu lado e fizeram o mesmo voto, com suas espadas desembainhadas à luz das tochas.
E eles juraram perseguir com vingança e ódio, até os confins do mundo, deus, Demônio, Elfo, Homem, ou qualquer criatura, grande ou pequena, boa ou má, que o tempo houvesse de gerar até o fim dos dias, a qual tivesse, ou tomasse, ou guardasse uma Silmaril.
Mas, naquele momento, tanto Fingolfin quanto Finarfin, os dois meios-irmãos de Fëanor, falaram CONTRA essa insensatez, despertando mais uma vez a ira entre essa família.
Mas, após um longo debate, Fëanor prevaleceu, e ele convenceu a maior parte da população noldorin a partir com ele em direção ao Norte, em busca de Morgoth, das Silmarils e da Terra-média.
Acontece que, embora Fëanor tivesse convencido a maioria dos Noldor a partir, ele não era AMADO pela maioria, já que muitos tinham muito mais amor por seu meio-irmão Fingolfin, que não só era o mais forte, o mais resoluto e o mais valente, como tinha inclusive governado os Noldor nos últimos anos, durante o exílio de Fëanor e o antigo Rei Finwë lá em Formenos, a Fortaleza do Norte.
E, assim, foi com duas hostes divididas que os Noldor saíram nessa estrada, sendo que Fëanor, com a minoria da população, seguia na frente, enquanto Fingolfin, com a maior parte do povo noldorin, seguia atrás – Fingolfin esse
Fingolfin esse que, aliás, marchava contra sua própria vontade [ENU] por causa da influência de seu filho Fingon, por não querer se separar de seu povo, e pelo juramento que tinha feito de seguir Fëanor aonde quer que ele fosse, como a gente viu mais atrás, lá no festival.
7. O FRATRICÍDIO DE ALQUALONDË E A PROFECIA DE MANDOS
E Fëanor, sabendo que a jornada rumo ao Norte não seria nada fácil pro povo noldorin, levou sua hoste até Alqualondë, o Porto dos Cisnes, onde viviam os Lindar, que eles chamavam de Teleri e que eram famosos pela construção de navios.
Lá Fëanor fez um novo discurso, semelhante ao que tinha feito em Tirion sobre Túna, na expectativa de convencer os Teleri a partirem com ele em direção à Terra-média, não só ajudando na travessia com os seus barcos, mas também aumentando os exércitos de Fëanor contra o deus Morgoth.
Mas os Lindar não se comoveram com nada do que ele disse e queriam mais dissuadi-los do que ajudá-los, dizendo que eles não só não se juntariam nessa jornada contra a vontade dos deuses, como também nem sequer emprestariam os seus navios.
[CITAÇÃO]
Então Fëanor encheu-se de ira […]; e falou furioso a Olwë [Rei dos Teleri]. “Renunciais a vossa amizade, na hora mesma de nosso apuro”, disse. “Ficastes, porém, muito contentes de receber nosso auxílio quando enfim chegastes a estas costas, errantes desencorajados, de mãos quase vazias. […]”
Mas Olwë replicou: “Não renunciamos a amizade alguma. Mas pode ser papel de amigo repreender a insensatez de um companheiro. […]”
O Silmarillion
Quenta Silmarillion; 9. Da Fuga dos Noldor
Foi então que Fëanor, no Porto dos Cisnes, ordenou que sua hoste tomasse os navios telerin à força e, quando os Teleri os enfrentaram, espadas foram desembainhadas, e uma grande luta se deu por lá.
Muitos foram mortos de ambos os lados, mas os Noldor seguidores de Fëanor, que seguiam na vanguarda e tinham sido quem iniciou essa luta, foram socorridos pelos Noldor seguidores de Fingolfin, que, quando chegaram lá, com a batalha já em curso, viram sua própria gente sendo morta, quando então eles entraram na luta contra os Teleri sem nem entender o motivo dela.
Assim, por fim, os Teleri foram sobrepujados, e grande parte dos marinheiros telerin que habitavam em Alqualondë, o Porto dos Cisnes, foi cruelmente morta pelos Noldor. Pois, como eu já disse mais atrás, os Elfos
os Elfos viviam sob a proteção dos deuses e, até então, só tinham feito armamentos leves pra caça de animais, sendo que somente o clã dos Noldor, o mais influenciado pelas mentiras de Morgoth, tinha se tornado feroz e desesperado, forjando armamentos mais poderosos, feitos especificamente pra matar os seus iguais.
Foi então que, após esse Fratricídio lá no Porto dos Cisnes, quando Elfo matou Elfo pela primeira vez, os Noldor tomaram os navios telerin e remaram em direção ao Norte ao longo da costa, já que naquela região os continentes de Aman e da Terra-média ainda eram muito distantes um do outro pra eles fazerem a travessia por ali.
Algum tempo depois, quando os Noldor já tinham seguido mais ao Norte, alguns a pé e outros nos navios, uma figura sombria se postou no alto de uma rocha, que muitos acreditaram ser Námo, o deus Sentenciador, que vivia lá nos Salões de Mandos, e nessa época cuidava dos espíritos de Finwë e Míriel, o pai e a mãe de Fëanor.
E todos os Elfos, tanto os seguidores de Fëanor quanto os seguidores de Fingolfin, se detiveram diante dessa figura, quando então uma voz sombria se fez ouvir, anunciando uma maldição e profecia que mais tarde foram chamadas tanto de “Profecia do Norte” quanto de “Condenação dos Noldor”.
E essa figura, que muitos acreditavam ser o deus Mandos, clamou que os Noldor [ENU] desistissem dessa jornada, retornassem pra sua cidade de Tirion sobre Túna, e buscassem o julgamento e o perdão dos deuses, sendo que aqueles que não o fizessem estariam fadados a derramarem “lágrimas inumeráveis”, com o reino de Valinor se fechando diante deles, com eles ficando trancados do lado de fora.
[CITAÇÃO]
Sobre a Casa de Fëanor a ira dos Valar [os deuses] jaz do Oeste até o extremo Leste e sobre todos os que os seguirem também há de jazer. Seu Juramento há de atiçá-los e, ao mesmo tempo, traí-los, sempre arrancando deles os próprios tesouros que juraram buscar. Um fim maligno hão de ter todas as coisas que eles começarem bem; e por traição de parente por parente, e pelo medo da traição, isso há de ocorrer. Os Despossuídos eles hão de ser para sempre.
“Derramastes o sangue de vossa gente iniquamente e manchastes a terra de Aman. Pelo sangue pagareis com sangue e, além de Aman, habitareis sob a sombra da Morte.
O Silmarillion
Quenta Silmarillion; 9. Da Fuga dos Noldor
Muitos dos Elfos noldorin se desesperam ao ouvirem essa maldição, mas Fëanor fez mais um discurso diante de seu povo e, embora alguns deles tenham acabado dando ouvidos ao deus Mandos e retornando até sua cidade – sendo o príncipe Finarfin um deles –, a maioria dos Noldor continuou seguindo Fëanor e seu meio-irmão Fingolfin em direção ao Norte e à Terra-média.
8. A TRAIÇÃO DE FËANOR E A TRAVESSIA DO GELO PUNGENTE
Assim, voltando à marcha em direção ao Norte, alguns a pé, outros de barco, os Noldor enfim chegaram próximo da região em que o continente de Aman e o continente da Terra-média se conectavam através de um pequeno estreito, no qual
no qual as águas geladas do Ekkaia, o Mar Circundante de Fora, e as ondas de Belegaer, o Grande Mar, fluíam juntas, formando o Helcaraxë, o Gelo Pungente, no qual, até então, ninguém exceto os próprios deuses tinha ousado caminhar.
Acontece que nesse momento muita confusão interna entre os Noldor começou a aparecer, e especialmente os seguidores de Fingolfin começaram a cochichar sobre as desgraças que tinham caído sobre eles por culpa de Fëanor.
Mas Fëanor não era bobo e sabia que essa inimizade entre a sua hoste e a hoste do seu meio-irmão Fingolfin aumentava cada vez mais. E, como os barcos que eles roubaram dos Elfos telerin não eram suficientes pra levar todo mundo até a Terra-média numa única viagem, e como
e como ele sabia que, por medo da traição, nenhum grupo aceitaria ficar pra trás e deixar que o outro atravessasse o Grande Mar primeiro, Fëanor, seus sete filhos, e sua hoste, escondendo seus propósitos e sem avisarem ninguém de seus planos, subiram
subiram a bordo dos navios telerin e partiram imediatamente de lá, atravessando Belegaer, o Grande Mar, e deixando Fingolfin e seu povo, que era a maioria entre os Elfos noldorin, na terra de Aman.
Depois da travessia, quando eles chegaram nas praias de Losgar, nas costas mais afastadas do Estreito de Drengist, lá no ermo de Lammoth, o Grande Eco, Maedhros, o primogênito de Fëanor, que tinha uma grande amizade com seu primo Fingon, filho de Fingolfin e que tinha ficado pra trás, perguntou
perguntou pro seu pai, na inocência, quais navios e quais remadores ele mandaria de volta pra buscarem os que tinham ficado por lá.
[CITAÇÃO]
Então Fëanor riu, como doudo, e gritou: “Ninguém e ninguém! O que deixei para trás não conto agora como perda; bagagem desnecessária na estrada se mostrou. Que aqueles que amaldiçoavam meu nome me amaldiçoem ainda e se lastimem no caminho de volta às gaiolas dos Valar! Que os navios queimem!”
O Silmarillion
Quenta Silmarillion; 9. Da Fuga dos Noldor
Foi então que Fëanor ordenou que os navios brancos dos Teleri fossem todos queimados. E Fingolfin e seu povo, do outro lado do Grande Mar, ainda na terra de Aman, viram ao longe a luz daquele grande incêndio, e eles
e eles souberam de imediato que tinham sido traídos por Fëanor, sendo esse o início daquela Condenação dos Noldor prenunciada por Mandos, o deus Sentenciador, embora a gente possa defender que ela começou antes mesmo do pronunciamento, lá no Fratricídio de Alqualondë.
E Fingolfin, vendo que Fëanor tinha deixado apenas duas opções pra ele e seu povo – morrerem de frio lá em Araman, no norte de Aman, ou voltarem em vergonha até Valinor – sentiu como nunca antes tinha sentido o desejo de chegar até a Terra-média e levar Fëanor a julgamento.
E foi por essa razão que Fingolfin e sua hoste – um povo poderoso – tomaram uma decisão que Fëanor jamais esperava que eles tomassem: atravessar, a pé, o Gelo Pungente do Helcaraxë, algo que até então somente os próprios deuses já tinham feito.
[CITAÇÃO]
O fogo de seus corações era jovem e, liderados por Fingolfin e seus filhos, e por Finrod e Galadriel, ousaram entrar no Norte mais terrível; […] suportaram afinal os terrores do Helcaraxë e as colinas cruéis de gelo. Poucos dos feitos dos Noldor depois disso superaram aquela travessia desesperada em firmeza ou sofrimento. […] e foi com uma hoste diminuída que Fingolfin pôs os pés, enfim, nas Terras de Fora. Pouco amor por Fëanor ou por seus filhos tinham aqueles que marcharam finalmente a segui-lo e tocaram suas trombetas na Terra-média ao primeiro nascer da Lua.
O Silmarillion
Quenta Silmarillion; 9. Da Fuga dos Noldor
9. A SEGUNDA BATALHA DE BELERIAND E A MORTE DE FËANOR
Mas, voltando um pouquinho tempo, as chamas do incêndio dos navios telerin lá em Losgar foram vistas não apenas pela hoste de Fingolfin, que Fëanor tinha desertado lá no norte de Aman, mas também pelos Orques e pelas sentinelas de Morgoth, que viviam lá no norte da terra de Beleriand.
E, enquanto a hoste de Fingolfin começava a sua grande jornada pelo Gelo Pungente do Helcaraxë, Fëanor e sua hoste seguiram em direção ao Leste, entrando na grande terra de Hithlum e, por fim, no lago de Mithrim, onde eles montaram um acampamento na margem norte.
Só que a hoste de Morgoth, provocada pela luz do incêndio dos navios lá em Losgar, e vindo de Angband no Norte, enfim atravessou as Ered Wethrin, as Montanhas de Sombra, e atacou o povo de Fëanor de surpresa, antes que o acampamento deles ‘tivesse pronto ou com defesas.
E foi lá nos campos de Mithrim que a Segunda Batalha das Guerras de Beleriand foi lutada – ela que durou ao todo 10 dias e foi chamada mais tarde de Dagor-nuin-Giliath, a Batalha-sob-as-Estrelas, já que nessa época a Lua e o Sol ainda não existiam.
[CITAÇÃO]
Os Noldor, em menor número e atacados de surpresa, ainda assim foram rapidamente vitoriosos; pois a luz de Aman ainda não esmaecera em seus olhos, e eles eram fortes, e rápidos, e mortais em sua fúria, e suas espadas eram longas e terríveis. Os Orques fugiram diante deles, e foram expulsos de Mithrim com grande matança, e caçados através das Montanhas de Sombra […]
O Silmarillion
Quenta Silmarillion; 13. Do Retorno dos Noldor
Acontece que Fëanor, em sua ira contra Morgoth, assassino de seu pai e ladrão de suas Silmarils, não queria parar e continuou atacando os remanescentes dos Orques, se movimentando sempre em direção ao Norte na expectativa de chegar até o próprio Morgoth, em busca de vingança.
Fëanor não fazia a menor ideia de que Angband existia, e muito menos da grande força de defesa que Morgoth tinha preparado por lá, mas, ainda que ele soubesse, isso certamente não impediria ele de buscar sua vingança, já que ele, o “Espírito de Fogo”, ‘tava consumido pela chama da ira.
E foi assim que, mesmo que ele não tenha partido sozinho em direção ao Norte, Fëanor acabou se pondo muito adiante da sua hoste, quando então não só os remanescentes dos serviçais de Morgoth pararam de fugir, como também os Balrogs – os demônios de fogo – nunca antes vistos pelos Elfos, saíram de Angband.
E lá, nos confins de Dor Daedeloth, a terra de Morgoth, Fëanor foi cercado, com poucos amigos à sua volta. Por muito tempo ele seguiu lutando, mesmo envolto no fogo dos Balrogs; mas, no fim, ele foi golpeado e lançado ao chão por Gothmog, o Senhor dos Balrogs.
E Fëanor teria morrido lá, nas mãos de Gothmog, se não fosse enfim resgatado por seus sete filhos, quando então os Balrogs o deixaram e partiram de volta pra Angband.
E seus filhos ergueram o pai e começaram a carregar ele de volta até Mithrim, onde eles tinham feito aquele acampamento antes do ataque surpresa, mas, conforme eles chegavam perto de Eithel Sirion, Fëanor pediu que seus filhos parassem, pois ele sabia que suas feridas eram mortais e que sua hora tinha chegado.
E, olhando de lá das encostas das Ered Wethrin, as Montanhas de Sombra, Fëanor contemplou uma última vez os picos das Thangorodrim, as Montanhas de Tirania, mais poderosas das torres da Terra-média, onde ficava a fortaleza de Angband.
E foi então que Fëanor, com sua última força, amaldiçoou o nome de Morgoth três vezes, e ordenou que seus filhos mantivessem aquele juramento que tinham feito em Tirion sobre Túna, de perseguirem qualquer um que guardasse uma das Silmarils.
[CITAÇÃO]
Então morreu; mas não teve nem enterro, nem tumba, pois tal fogo havia em seu espírito que, quando partiu, seu corpo se fez cinza e foi levado embora como fumaça; e sua semelhança nunca mais apareceu em Arda, nem seu espírito deixou os salões de Mandos. Esse foi o fim do mais poderoso dos Noldor, de cujos feitos vieram tanto seu maior renome como suas dores mais sofridas.
O Silmarillion
Quenta Silmarillion; 13. Do Retorno dos Noldor
Etimologia e outros nomes
Em uma das versões da história é dito que Fëanor recebeu primeiro o nome de Minyon, Primeiro-gerado, mas depois o de Curufinwë ou Fëanor.[6]
Seu nome paterno era Curufinwë, sendo a junção de curu ("engenho") com o nome de seu pai, finwë, e ele deu o mesmo nome a seu quinto filho, Curufin; mas ele próprio era conhecido pelo nome que sua mãe lhe deu, Fëanáro, “Espírito de Fogo”, que recebeu a forma sindarin Fëanor.[7]
Fëanor é a combinação do quenya fëa ("espírito") com o quenya nár ("fogo"), significando "espírito de fogo".
A forma sindarin de nár era naur, como em Sammath Naur, as Câmaras de Fogo. Ambas versões derivam da mesma raiz antiga: (a)nar, o nome do Sol (em quenya Anar, sindarin Anor).
Referências
- ↑ 1,0 1,1 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). O Silmarillion (Quenta Silmarillion; 6. De Fëanor e de Melkor Desacorrentado).
- ↑ J.R.R. Tolkien (autor). Carl F. Hostetter (editor). A Natureza da Terra-média (Parte dois: corpo, mente e espírito; 4. Cabelos)
- ↑ J.R.R. Tolkien. O Senhor dos Anéis (Apêndices; F; II. Da tradução)
- ↑ J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). O Silmarillion (Quenta Silmarillion; 5. De Eldamar e dos Príncipes de Eldalië).
- ↑ J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). O Silmarillion (Quenta Silmarillion; 7. Das Silmarils e da Inquietação dos Noldor).
- ↑ J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). O Anel de Morgoth (Parte Dois: Os Anais de Aman; Terceira Seção dos Anais de Aman; O Acorrentamento de Melkor; 1115)
- ↑ J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). O Silmarillion (Índice de Nomes).
