Mîm

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Mîm foi um Anão-Miúdo de Beleriand, pai de Ibun e Khîm, lembrado como o último sobrevivente de seu povo. Habitava Amon Rûdh, na morada chamada Bar-en-Nibin-noeg, e entrou na história de Túrin Turambar quando foi capturado pelo bando de proscritos que seguia Túrin. Em troca da própria vida, conduziu-os até sua casa, que depois passou a ser conhecida como Bar-en-Danwedh, a Casa do Resgate.[1]

História

Origem e povo

Mîm pertencia aos Anãos-Miúdos, chamados pelos Elfos de Beleriand de Nibin-nogrim. Pouco se sabia sobre esse povo mesmo nos Dias Antigos, e sua memória acabou desaparecendo quase por completo. Segundo a tradição preservada no Narn i Hîn Húrin, os Anãos-Miúdos não eram amados pelos Elfos e, por sua vez, também não amavam os Eldar. Temiam e odiavam os Orques, mas guardavam especial ressentimento contra os Exilados, a quem acusavam de ter tomado suas antigas terras e moradas.[1]

A origem dos Anãos-Miúdos era explicada de modo incerto. Dizia-se que descendiam de Anãos expulsos das cidades anânicas do leste em tempos antigos e que, muito antes do retorno de Morgoth à Terra-média, haviam migrado para o oeste. Vivendo sem senhores, em pequeno número e com pouco acesso a metais, perderam parte de sua antiga habilidade como ferreiros e passaram a levar uma existência furtiva e isolada. Tornaram-se menores que outros Anãos, embora continuassem fortes e resistentes como os demais de sua raça.[1]

A tradição também atribuía aos Anãos-Miúdos uma relação antiga com Nargothrond. Antes da chegada de Finrod Felagund a Beleriand, eles teriam encontrado o local e iniciado sua escavação. Esse passado ajuda a explicar o ressentimento de Mîm contra os Elfos e, em especial, contra os Noldor, pois para ele a expansão élfica estava ligada à perda das antigas habitações de seu povo.[1]

Encontro com Túrin

Depois da partida de Beleg, no segundo verão após a fuga de Túrin de Doriath, a situação dos proscritos tornou-se mais difícil. Com o aumento da presença de Orques nas terras a oeste de Doriath e a chegada de chuvas fora de época, Túrin passou a procurar um refúgio mais seguro para sua companhia. Ao conduzir seus homens para o sul, nas bordas ocidentais dos bosques do Vale do Sirion, encontrou três figuras encapuzadas que caminhavam entre pedras carregando grandes sacos.[1]

Os proscritos perseguiram os desconhecidos, e Andróg disparou contra eles. Dois escaparam no crepúsculo, mas o terceiro, mais velho e carregado, foi alcançado e capturado. Alguns homens quiseram matá-lo, pensando tratar-se de um Orque ou de alguém ligado aos Orques, mas Túrin percebeu que era um Anão e ordenou que fosse poupado. O prisioneiro então revelou seu nome: Mîm. Interrogado por Túrin sobre o que poderia oferecer como resgate por sua vida, Mîm acabou admitindo possuir uma morada segura e aceitou compartilhá-la com os proscritos, embora se recusasse a entregá-la como propriedade deles.[1]

Túrin prometeu que, caso Mîm os conduzisse sem traição até um bom esconderijo, nenhum homem de sua companhia o mataria. Mîm, porém, demonstrou grande apego ao saco que carregava, no qual havia raízes e pequenos objetos aparentemente sem valor. Como Túrin não permitiu que ele partisse sozinho, Mîm foi mantido durante a noite entre os proscritos. Pela manhã, irritado por ter sido amarrado, declarou que um Anão não perdoaria tal tratamento; Túrin, contudo, reafirmou sua decisão e prometeu que Mîm não seria posto em amarras outra vez. Então o Anão aceitou guiá-los até Amon Rûdh, que em sua própria língua chamava de Sharbhund.[1]

Bar-en-Danwedh e Dor-Cúarthol

Mîm conduziu Túrin e seus homens por um caminho oculto até o alto de Amon Rûdh. Ali ficava Bar-en-Nibin-noeg, antiga morada dos Anãos-Miúdos, conhecida apenas por velhas tradições de Doriath e Nargothrond. A entrada era difícil de encontrar para quem não conhecesse o caminho, e a habitação fora escavada sob o monte ao longo de muitos anos. Ao chegar à caverna, Mîm a chamou de Bar-en-Danwedh, a Casa do Resgate, nome que Túrin aceitou depois de reconhecer que a morada era de fato segura.[1]

Dentro da casa, porém, Túrin descobriu que Khîm, um dos filhos de Mîm, havia sido atingido pela flecha disparada por Andróg durante a perseguição e morrera ao pôr do sol. Comovido, Túrin declarou-se devedor de Mîm e prometeu pagar um resgate em ouro pelo filho morto, caso algum dia viesse a possuir riqueza suficiente. Mîm aceitou que os proscritos permanecessem em sua morada, mas exigiu que Andróg quebrasse seu arco e suas flechas e os depositasse aos pés de Khîm. Também lançou sobre ele uma maldição: se voltasse a usar arco e flecha, morreria por esse meio.[1]

Com o tempo, Amon Rûdh tornou-se o centro da resistência de Túrin e Beleg contra os servos de Morgoth. O refúgio passou a ser chamado também de Echad i Sedryn, o Acampamento dos Fiéis, embora o caminho até ele permanecesse conhecido apenas pelos membros antigos da companhia. Por conselho de Beleg, novos aliados não eram admitidos na morada de Mîm, mas acampamentos auxiliares foram estabelecidos nas terras vizinhas. A força reunida em torno de Túrin cresceu, e ele passou a chamar a região entre o Teiglin e o limite ocidental de Doriath de Dor-Cúarthol, a Terra do Arco e do Elmo.[2]

A presença de Beleg em Bar-en-Danwedh aumentou o ressentimento de Mîm. O Anão odiava os Elfos e via com ciúme a afeição de Túrin pelo arqueiro de Doriath. Quando Andróg, durante uma incursão, voltou a usar arco e foi ferido por uma flecha envenenada de Orque, Beleg conseguiu curá-lo. Para Mîm, isso pareceu desfazer sua maldição, e seu ódio por Beleg tornou-se ainda maior.[2]

Traição e queda de Amon Rûdh

À medida que a fama de Túrin e Beleg se espalhava, Morgoth voltou sua atenção para Amon Rûdh. Espiões passaram a cercar o monte, observando os movimentos dos homens que entravam e saíam. Mîm sabia da presença dos Orques nas proximidades, e o relato principal afirma que, movido por seu ódio a Beleg e pelo desejo de recuperar sua casa, decidiu procurar os servos de Morgoth e conduzi-los ao esconderijo de Túrin.[2]

Mîm tentou impor condições aos Orques: queria pagamento pelos homens capturados ou mortos, exigiu que sua casa lhe fosse devolvida e pediu que Beleg fosse deixado amarrado para que ele próprio cuidasse dele. Também pediu que Túrin fosse libertado. Os Orques aceitaram suas exigências apenas de modo aparente, pois não pretendiam cumpri-las, e mantiveram Ibun, o outro filho de Mîm, como refém. Assim, Mîm foi obrigado a guiá-los até Bar-en-Danwedh. Outra tradição, registrada junto ao relato, atribuía a traição menos a uma intenção deliberada de Mîm e mais à captura de Ibun e à ameaça de tortura contra seu filho.[2]

Com Mîm como guia, os Orques alcançaram a saliência diante da entrada de Bar-en-Danwedh e atacaram o refúgio. Túrin, Beleg e seus homens resistiram, primeiro junto à entrada da caverna e depois no topo de Amon Rûdh, ao qual chegaram por uma escada secreta. A defesa terminou em derrota: quase todos os homens de Túrin foram mortos, Andróg caiu mortalmente ferido, Túrin foi capturado e Beleg, ferido, foi deixado preso sobre a rocha.[2]

Depois da partida dos Orques, Mîm saiu de seu esconderijo e encontrou Beleg amarrado e indefeso. Aproximou-se dele com uma faca, mas Andróg, ainda vivo entre os mortos, reuniu suas últimas forças e o afastou. Mîm fugiu por uma trilha difícil conhecida por ele, enquanto Andróg libertava Beleg antes de morrer. Assim caiu Bar-en-Danwedh, e a Casa do Resgate foi traída.[2]

Retorno a Nargothrond e morte

Depois da queda de Nargothrond e da partida de Glaurung, Mîm entrou nas ruínas da antiga fortaleza e tomou para si o tesouro ali deixado. Segundo a tradição preservada em O Silmarillion, ele passou a guardar o ouro de Nargothrond como se lhe pertencesse, invocando a antiga ligação dos Anãos-Miúdos com aquelas cavernas.[3]

Após ser libertado por Morgoth, Húrin chegou a Nargothrond em suas errâncias. Ali encontrou Mîm entre o tesouro. O Anão-Miúdo tentou reivindicar o ouro, mas Húrin o reconheceu como traidor de Túrin em Amon Rûdh e o matou. Antes de morrer, Mîm amaldiçoou o tesouro de Nargothrond, e essa maldição passou a acompanhar o ouro levado depois por Húrin a Menegroth.[3]

A maldição de Mîm não é apresentada como a única causa da ruína posterior de Doriath, mas integra a cadeia de acontecimentos ligada ao tesouro de Nargothrond, ao Nauglamír e ao agravamento da tensão entre Elfos e Anãos. Desse modo, a história de Mîm se prolonga para além da queda de Amon Rûdh: sua morte e sua maldição reaparecem no ciclo final da ruína de Doriath e no destino do tesouro tomado de Nargothrond.[3]

Características

Mîm é apresentado como uma figura marcada pelo isolamento, pela perda e pelo ressentimento. Como um dos últimos Anãos-Miúdos, vivia afastado dos povos dominantes de Beleriand e conservava a memória amarga da expulsão e do desaparecimento de seu povo. Seu ódio pelos Elfos, em especial pelos Noldor, deriva desse passado coletivo e não apenas de uma antipatia individual.[1]

Sua relação com Túrin é ambígua. Mîm acolhe os proscritos em sua casa como pagamento pelo próprio resgate, mas nunca deixa de considerar Bar-en-Danwedh uma morada sua. A morte de Khîm, causada por Andróg durante a perseguição, agrava essa tensão: Mîm aceita a compensação prometida por Túrin, mas conserva luto e rancor. Sua maldição contra Andróg mostra tanto seu apego à justiça compensatória quanto sua disposição para responder à violência com ameaça e vingança.[1]

Mîm também demonstra astúcia e conhecimento profundo de sua terra. Conhece caminhos ocultos, entradas secretas e rotas de fuga em Amon Rûdh; sabe negociar quando está em perigo; e tenta impor condições mesmo diante dos Orques. Essa prudência, porém, aparece associada ao medo, ao apego à posse e à hostilidade acumulada contra aqueles que invadem ou ameaçam sua casa.[2]

O texto não fornece uma descrição física individual detalhada de Mîm além de sua condição de Anão-Miúdo e de sua idade avançada. Por isso, qualquer caracterização visual precisa permanecer limitada a esses elementos e ao contexto cultural de seu povo, evitando traços não sustentados pela narrativa.[1]

Etimologia

O nome Mîm não recebe uma etimologia clara nas principais narrativas sobre Túrin, Amon Rûdh e Nargothrond. Nas versões antigas do legendário, ele aparece também como Mim, sem o acento circunflexo, e é chamado de “o sem-pai” ou “o pai sem origem” em contexto narrativo, mas esse epíteto não é apresentado como explicação linguística do nome.[4]

A tradição posterior associa Mîm aos Anãos-Miúdos, conhecidos em Sindarin como Noegyth Nibin ou por formas relacionadas. Em textos preparatórios e comentários editoriais, Christopher Tolkien registra uma variedade de formas usadas por J. R. R. Tolkien para esse povo, como Nibin-noeg, Nibinnogrim, Nibennog, Naug-neben e outras. Essas variações dizem respeito sobretudo ao nome do povo de Mîm, não ao significado do nome individual Mîm.[5]

Outras versões do legendário

Primeiras versões

Nas versões mais antigas da história de Túrin, reunidas em The Book of Lost Tales Part Two, Mîm ainda não aparece como morador de Amon Rûdh nem como personagem ligado ao episódio dos proscritos de Túrin. Nessa fase do legendário, ele surge sobretudo no desfecho da história, em Nargothrond, depois da morte de Glorund, forma antiga de Glaurung. Ali é descrito como um Anão velho e disforme que guardava o tesouro do dragão e o havia ligado a si por encantamentos.[4]

Nessa versão, Úrin, forma antiga de Húrin, chega às cavernas com um bando de Elfos selvagens. Mîm tenta impedi-los de tomar o tesouro, advertindo que sobre ele repousava o mal do dragão. Úrin, contudo, o mata, e Mîm, ao morrer, amaldiçoa o ouro. A maldição passa então a acompanhar o tesouro e prepara a sequência de desastres narrada em The Nauglafring, a versão antiga da história do Nauglamír.[4]

O tesouro e o Nauglafring

Em The Nauglafring, a maldição de Mîm tem peso narrativo muito maior do que na forma posterior publicada em O Silmarillion. O ouro tomado de Nargothrond chega ao reino de Tinwelint, forma antiga de Thingol, e sua influência maléfica atua sobre o rei, seus homens e os Anãos que trabalham o tesouro. O Nauglafring, forma antiga do Nauglamír, é assim associado a uma cadeia de maldições, cobiça e violência que culmina na ruína de Doriath e nos conflitos entre Elfos e Anãos.[6]

Essa versão difere bastante da narrativa posterior. No legendário mais maduro, Mîm continua ligado à maldição do tesouro de Nargothrond, mas sua função é mais delimitada: ele é o último dos Anãos-Miúdos, traidor de Amon Rûdh e ocupante das ruínas de Nargothrond, morto por Húrin antes que este leve o Nauglamír a Doriath. Já nas primeiras versões, Mîm aparece menos integrado à história de Túrin em Amon Rûdh e mais próximo do modelo tradicional do Anão guardião de tesouro amaldiçoado.[4][6]

Desenvolvimento posterior

Em fases intermediárias do legendário, a presença de Mîm em Nargothrond foi mantida, mas sua história começou a ser mais claramente integrada à origem dos Anãos-Miúdos. Em comentários sobre os textos do ciclo de Túrin, Christopher Tolkien observa que a necessidade de explicar quem era Mîm e por que estava em Nargothrond levou ao desenvolvimento da concepção dos Anãos-Miúdos, povo antigo, diminuído e hostil, que teria habitado Beleriand antes de ser deslocado por outros poderes.[7]

Nos materiais posteriores associados ao Narn i Hîn Húrin, Mîm passa a ter uma ligação direta com Amon Rûdh e com a companhia de Túrin. Sua hostilidade aos Elfos também recebe explicação mais precisa: ele atribui aos Elfos a destruição de seu povo e a tomada de suas antigas moradas, especialmente Nargothrond, cujo nome aparece em forma anânica como Nulukhizidûn ou Nulukkhizdīn em materiais preparatórios.[5]

Textos tardios preservam ainda uma tradição segundo a qual Finrod Felagund teria contado com a ajuda dos Anãos-Miúdos no começo da fundação de Nargothrond. Nessa versão, Mîm é apresentado como chefe desse povo e teria tentado matar Finrod enquanto ele dormia, sendo depois expulso para os ermos. Essa tradição não substitui a narrativa principal de Os Filhos de Húrin, mas ajuda a explicar, em uma camada tardia do legendário, o ódio de Mîm pelos Noldor e sua reivindicação sobre Nargothrond.[8]

Referências

  1. 1,00 1,01 1,02 1,03 1,04 1,05 1,06 1,07 1,08 1,09 1,10 1,11 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). Os Filhos de Húrin (Sobre Mîm, o Anão).
  2. 2,0 2,1 2,2 2,3 2,4 2,5 2,6 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). Os Filhos de Húrin (A Terra do Arco e do Elmo).
  3. 3,0 3,1 3,2 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). O Silmarillion (Da Ruína de Doriath).
  4. 4,0 4,1 4,2 4,3 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). The Book of Lost Tales Part Two (Turambar and the Foalókë).
  5. 5,0 5,1 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). The War of the Jewels (The Later Quenta Silmarillion: comentário sobre Mîm e os Anãos-Miúdos).
  6. 6,0 6,1 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). The Book of Lost Tales Part Two (The Nauglafring).
  7. J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). The Lays of Beleriand (The Lay of the Children of Húrin; comentário).
  8. J.R.R. Tolkien (autor). Carl F. Hostetter (editor). A Natureza da Terra-média (A Fundação de Nargothrond).