Finduilas
Finduilas foi uma elfa de Nargothrond, filha do rei Orodreth e prometida de Gwindor. Sua história está ligada aos últimos anos de Nargothrond e à chegada de Túrin Turambar ao reino, onde ela se tornou uma das principais figuras envolvidas no destino de Túrin antes da queda da cidade.[1]
Gwindor chamava Finduilas de Faelivrin, nome explicado como “o brilho do sol nas lagoas de Ivrin”.[1] Na narrativa publicada, ela é lembrada sobretudo por sua relação com Gwindor, por seu vínculo crescente com Túrin e por seu destino durante a ruína de Nargothrond.[2]
História
Nargothrond e Gwindor
Antes da Nirnaeth Arnoediad, Finduilas e Gwindor estavam prometidos. Gwindor partiu jovem e forte para a guerra, mas foi capturado e levado a Angband, onde sofreu tormentos e trabalhos forçados. Quando retornou a Nargothrond, estava tão alterado por suas provações que nem mesmo seu próprio povo o reconheceu de início.[1]
Finduilas, porém, reconheceu Gwindor e o recebeu de volta. O texto associa esse reconhecimento ao amor que ela tivera por ele e ao compromisso existente entre ambos antes da guerra. Gwindor, por sua vez, amava sua beleza e lhe dera o nome Faelivrin, ligado à luz do sol nas lagoas de Ivrin.[1]
Foi por causa de Gwindor que Túrin foi admitido em Nargothrond. Ao apresentar o companheiro que trouxera consigo, Gwindor declarou que ele era um homem valoroso e amigo de Beleg Cúthalion, de Doriath. Túrin, contudo, não quis revelar seu verdadeiro nome naquele momento e tomou para si o nome de Agarwaen, filho de Úmarth.[1]
Túrin em Nargothrond
Em Nargothrond, Túrin passou a ganhar prestígio entre os guerreiros do reino, primeiro sob o nome de Agarwaen e depois como Mormegil, a Espada Negra. Sua presença alterou também a relação entre Finduilas e Gwindor. Embora Gwindor continuasse a amá-la, percebeu que o sentimento de Finduilas se voltava cada vez mais para Túrin.[1]
Finduilas, por sua vez, compreendeu que Túrin não lhe correspondia da mesma maneira. Gwindor advertiu-a de que Túrin estava ligado a um destino sombrio e que amá-lo poderia levá-la à dor. A narrativa apresenta esse vínculo como parte da tragédia de Nargothrond: Finduilas reconhece a grandeza e o sofrimento de Túrin, mas permanece presa entre a antiga promessa feita a Gwindor e a atração crescente pelo homem que se tornara central no reino de seu pai.[1][2]
A influência de Túrin também afetou a política de Nargothrond. Com o tempo, ele passou a aconselhar uma guerra mais aberta contra Morgoth, contrariando a antiga cautela do reino oculto. Orodreth ouviu seus conselhos, e a construção de uma grande ponte sobre o Narog tornou mais fácil a saída das forças de Nargothrond, mas também expôs a cidade ao ataque direto.[1]
Queda de Nargothrond
A ruína de Nargothrond começou com a derrota de suas forças na Batalha de Tumhalad, onde Orodreth foi morto e Gwindor recebeu ferimentos mortais. Antes de morrer, Gwindor pediu a Túrin que procurasse salvar Finduilas, afirmando que ela era a única pessoa que ainda poderia afastá-lo de seu destino sombrio.[3]
Túrin chegou a Nargothrond enquanto a cidade era saqueada por Orcs e pelo dragão Glaurung. Finduilas estava entre os prisioneiros levados para fora da cidade, mas Túrin foi detido pelo olhar e pelas palavras de Glaurung. Sob o poder do dragão, ele foi levado a acreditar que sua mãe Morwen e sua irmã Nienor sofriam em Dor-lómin, e abandonou a tentativa de seguir os cativos.[3][2]
Assim, Finduilas foi levada pelos Orcs para longe de Nargothrond. A decisão de Túrin de partir para Dor-lómin, provocada pelo engano de Glaurung, tornou impossível seu resgate imediato e preparou o desfecho de sua história nas proximidades das Travessias do Teiglin.[3]=
Morte e Haudh-en-Elleth
Finduilas foi conduzida pelos Orcs para o norte, junto de outros prisioneiros de Nargothrond. Nas proximidades das Travessias do Teiglin, os Orcs foram atacados por homens de Brethil, mas, antes que os cativos pudessem ser libertados, mataram seus prisioneiros. Finduilas foi ferida mortalmente e, antes de morrer, pediu que dissessem ao Mormegil que ela estava ali.[4][2]
Os homens de Brethil sepultaram Finduilas no local de sua morte e levantaram sobre ela um túmulo chamado Haudh-en-Elleth, o “Monte da Donzela Élfica”. Mais tarde, quando Túrin chegou a Brethil e soube do destino de Finduilas, caiu em grande sofrimento diante do túmulo.[4]
Características
Finduilas é apresentada como filha de Orodreth e figura de alta posição em Nargothrond. Sua importância narrativa está ligada principalmente a três relações: a promessa anterior feita a Gwindor, o afeto que passou a sentir por Túrin e sua posição no reino governado por seu pai.[1]
O texto destaca sua fidelidade afetiva a Gwindor no momento do retorno dele de Angband: embora ele estivesse profundamente alterado pelo cativeiro, Finduilas o reconheceu quando outros não o fizeram. Essa cena estabelece sua ligação anterior com Gwindor e prepara o conflito posterior causado pela presença de Túrin em Nargothrond.[1]
Finduilas também percebe a grandeza e a dor de Túrin, mas sua relação com ele é marcada por assimetria. Túrin se torna central em Nargothrond e desperta nela um amor que não recebe resposta equivalente. Gwindor interpreta esse vínculo como perigoso, associando-o ao destino sombrio de Túrin.[1][2]
Sua morte tem função decisiva na história de Túrin. O pedido de Gwindor para que Túrin salvasse Finduilas, o engano de Glaurung e o atraso de Túrin em socorrê-la transformam seu destino em uma das consequências diretas da queda de Nargothrond e da maldição que cerca a Casa de Húrin.[3][4]
Etimologia
O significado do nome Finduilas não é explicado diretamente nas principais narrativas publicadas sobre Túrin Turambar. Nessas obras, o nome aparece como o da filha de Orodreth, sem decomposição linguística explícita.[1][2]
Faelivrin, nome dado a Finduilas por Gwindor, é explicado no próprio texto como “o brilho do sol nas lagoas de Ivrin”.[1] O túmulo de Finduilas, Haudh-en-Elleth, é traduzido como “Monte da Donzela Élfica” ou “Túmulo da Donzela Élfica”.[4][5]
Outras versões do legendário
Em The Book of Lost Tales Part Two, na versão inicial da história de Túrin, a personagem correspondente a Finduilas aparece como Failivrin, filha de Galweg entre os Rodothlim. Nessa fase do legendário, ela não é filha de Orodreth, e sua ligação anterior com Gwindor ainda não possui a forma da narrativa posterior.[6]
Christopher Tolkien observa que, na evolução da narrativa, parte das funções de Galweg e de Orodreth foi redistribuída. Na versão antiga, Galweg era o pai de Failivrin e morria na batalha; na forma posterior, Orodreth tornou-se pai de Finduilas e também morreu na derrota de Nargothrond. Do mesmo modo, Gwindor passou a ocupar uma posição mais complexa, como prometido de Finduilas e rival involuntário de Túrin em seu afeto.[7]
Em The Lays of Beleriand, a forma poética da história já aproxima a personagem da versão posterior. O poema usa Finduilas e Failivrin, apresentando Failivrin como nome associado à luz nas águas de Ivrin. Nessa fase, Flinding, forma anterior de Gwindor, já é ligado a Nargothrond e à história de Túrin, embora alguns detalhes ainda difiram da narrativa publicada em O Silmarillion e Os Filhos de Húrin.[8]
Nos Grey Annals, publicados em The War of the Jewels, a narrativa já apresenta a forma mais próxima da tradição posterior: Finduilas é filha de Orodreth, prometida a Gwindor, reconhece-o após seu retorno de Angband e passa a amar Túrin em Nargothrond. Essa versão também registra o papel de Gwindor ao revelar a Finduilas a verdadeira identidade de Túrin.[5]
A genealogia de Finduilas sofreu alteração em escritos tardios. Em materiais discutidos em The Peoples of Middle-earth, Orodreth foi deslocado para uma geração posterior da Casa de Finarfin, e Gil-galad passou a ser apresentado, nessa concepção tardia, como filho de Orodreth. Como Finduilas permaneceu filha de Orodreth nessas genealogias, ela se tornou irmã de Gil-galad nessa versão. Christopher Tolkien observa, porém, que essa concepção tardia não foi incorporada às narrativas existentes nem ao texto publicado de O Silmarillion.[9]
Em textos cronológicos tardios reunidos em A Natureza da Terra-média, Tolkien examinou problemas relativos ao envelhecimento dos Elfos e mencionou Finduilas como exemplo, tratando de sua idade aproximada quando Túrin chegou a Nargothrond. Esses cálculos pertencem a uma fase especulativa e revisada do legendário, devendo ser tratados como reflexão cronológica tardia, não como parte da narrativa principal.[10]
Failivrin nos Contos Perdidos
Em The Book of Lost Tales Part Two, na versão inicial da história de Túrin, a personagem correspondente a Finduilas aparece como Failivrin, filha de Galweg entre os Rodothlim. Nessa fase do legendário, ela não é filha de Orodreth, e sua relação com Gwindor ainda não possui a forma posterior: não há promessa anterior entre os dois, nem conflito afetivo estruturado em torno do retorno de Gwindor de Angband.[6]
A versão antiga já contém, porém, elementos que permaneceriam na tradição posterior: Failivrin ama Túrin sem ser correspondida plenamente, é levada entre os cativos na ruína dos salões dos Rodothlim, e Túrin fica impossibilitado de socorrê-la por causa do poder do dragão. Christopher Tolkien observa que, nessa versão, não há ainda o Haudh-en-Elleth nem uma narrativa precisa do destino final de Failivrin após sua captura.[7]
Na evolução da história, parte das funções de Galweg e Orodreth foi redistribuída. Galweg, pai de Failivrin na versão antiga, desapareceu da tradição posterior; Orodreth tornou-se pai de Finduilas, enquanto Gwindor passou a ocupar papel mais complexo como antigo prometido de Finduilas e rival involuntário de Túrin em seu afeto.[7]
A Balada dos Filhos de Húrin
Em The Lays of Beleriand, a história de Finduilas aparece em The Lay of the Children of Húrin, poema aliterativo inacabado dedicado à narrativa dos filhos de Húrin. Nessa fase, Galweg já desapareceu, e Failivrin passou a ser filha de Orodreth. A relação com Flinding, forma anterior de Gwindor, também já se aproxima da versão posterior: ele amava Failivrin, e ela correspondia esse amor antes de sua captura.[8]
O poema também desenvolve a admissão de Túrin e Flinding em Nargothrond de modo mais amplo do que a narrativa publicada. Nessa versão, a intervenção de Failivrin diante de Orodreth contribui para que os dois sejam recebidos no reino. Christopher Tolkien observa que esse motivo pode ter deixado um vestígio na forma condensada da narrativa publicada, em que Finduilas reconhece Gwindor quando outros não o reconhecem.[11]
A forma dos nomes ainda varia nessa fase textual. O poema usa Failivrin e Finduilas, e apresenta Failivrin como nome associado ao brilho nas águas de Ivrin. A narrativa poética também difere da versão posterior porque Túrin não oculta sua identidade em Nargothrond como faria sob o nome de Agarwaen em O Silmarillion e Os Filhos de Húrin.[11]
Como o poema foi abandonado antes de narrar toda a queda de Nargothrond, ele não apresenta o desfecho posterior de Finduilas nas Travessias do Teiglin. Seu valor principal para o verbete está no desenvolvimento intermediário da personagem: de Failivrin, filha de Galweg nos Contos Perdidos, para Finduilas/Failivrin, filha de Orodreth e ligada a Flinding/Gwindor.[8][11]
Genealogias e cronologias tardias
A posição genealógica de Finduilas foi afetada por alterações tardias na Casa de Finarfin. Na tradição publicada em O Silmarillion, Orodreth aparece como filho de Finarfin e irmão de Finrod Felagund. Em materiais genealógicos posteriores, porém, Tolkien deslocou Orodreth para uma geração mais nova, fazendo dele primeiro filho de Finrod e depois filho de Angrod. Nessa última concepção, Orodreth recebeu formas como Artaresto, Artaher e Arothir.[9]
Essas revisões também atingiram a origem de Gil-galad. Em uma solução tardia, Tolkien fez de Gil-galad filho de Orodreth; como Finduilas permaneceu filha de Orodreth nessas genealogias, ela se tornou, nessa versão, irmã de Gil-galad. Christopher Tolkien observa que essa concepção foi a última posição de Tolkien sobre a questão, mas que não chegou a alterar as narrativas existentes, nem pôde ser incorporada ao texto publicado de O Silmarillion.[9]
Textos cronológicos tardios reunidos em A Natureza da Terra-média também mencionam Finduilas em discussões sobre o crescimento e o envelhecimento dos Elfos. Nesses cálculos, Tolkien tentou explicar sua idade aparente quando Túrin Turambar chegou a Nargothrond, levando em conta que ela já estava prometida a Gwindor antes da Nirnaeth Arnoediad. As notas consideram Finduilas uma elfa muito jovem para os padrões élficos e, em uma das formulações, a mais jovem dos Exilados.[12]
Esses cálculos permanecem instáveis. Em outra discussão sobre o envelhecimento élfico, Tolkien ainda procurava ajustar a idade de Finduilas, mas o próprio material preservado apresenta tentativas revisadas e problemas cronológicos. Por isso, essas notas são úteis para mostrar preocupações tardias de Tolkien com cronologia e idade élfica, mas não devem substituir a apresentação narrativa de Finduilas em O Silmarillion e Os Filhos de Húrin.[13]
Referências
- ↑ 1,00 1,01 1,02 1,03 1,04 1,05 1,06 1,07 1,08 1,09 1,10 1,11 1,12 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). Os Filhos de Húrin (Túrin em Nargothrond).
- ↑ 2,0 2,1 2,2 2,3 2,4 2,5 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). O Silmarillion (De Túrin Turambar).
- ↑ 3,0 3,1 3,2 3,3 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). Os Filhos de Húrin (A Queda de Nargothrond).
- ↑ 4,0 4,1 4,2 4,3 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). Os Filhos de Húrin (A Chegada de Túrin a Brethil).
- ↑ 5,0 5,1 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). The War of the Jewels (The Grey Annals).
- ↑ 6,0 6,1 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). The Book of Lost Tales Part Two (The Tale of Turambar and the Foalókë).
- ↑ 7,0 7,1 7,2 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). The Book of Lost Tales Part Two (Commentary on The Tale of Turambar and the Foalókë).
- ↑ 8,0 8,1 8,2 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). The Lays of Beleriand (The Lay of the Children of Húrin).
- ↑ 9,0 9,1 9,2 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). The Peoples of Middle-earth (The Shibboleth of Fëanor).
- ↑ J.R.R. Tolkien (autor). Carl F. Hostetter (editor). A Natureza da Terra-média (O envelhecimento élfico).
- ↑ 11,0 11,1 11,2 J.R.R. Tolkien (autor). Christopher Tolkien (editor). The Lays of Beleriand (Commentary on The Lay of the Children of Húrin).
- ↑ J.R.R. Tolkien (autor). Carl F. Hostetter (editor). A Natureza da Terra-média (Dificuldades na Cronologia).
- ↑ J.R.R. Tolkien (autor). Carl F. Hostetter (editor). A Natureza da Terra-média (Envelhecimento dos Elfos).
